REDAÇÃO CAPIXABA HOJE | Por Ana Paula Sartori
Especialista em Política Internacional e Segurança Global
A manhã deste domingo (5) trouxe mais um capítulo preocupante na crescente tensão entre Estados Unidos e Irã. Em uma postagem na sua rede social, Truth Social, o presidente Donald Trump recorreu a uma combinação explosiva de xingamentos e ameaças militares explícitas, prometendo transformar terça-feira no que chamou de “Dia da Usina e o Dia da Ponte” no território iraniano.
A mensagem, direcionada à liderança de Teerã, é clara: abram o Estreito de Ormuz “ou vocês viverão no inferno”. A linguagem – que inclui o termo “malucos” – não é apenas um ato de bravata retórica. No atual estágio do conflito, ela sinaliza uma mudança tática significativa nos planos de guerra da Casa Branca.
Infraestrutura como alvo: uma nova fase da guerra
Até agora, os confrontos entre EUA e Irã, embora intensos, concentravam-se em bases militares, ativos navais e instalações de mísseis. Ameaçar pontes e usinas (presumivelmente usinas de energia, petroquímicas ou mesmo nucleares) representa um salto qualitativo: atacar a infraestrutura civil e econômica essencial.
Pontes interligam cidades e cadeias de suprimento; usinas sustentam hospitais, água e comunicações. Bombardeá-las sistematicamente não é apenas um ato de força contra o regime – é uma tática de guerra de cerco e submissão da população civil, com potencial de criar uma crise humanitária de larga escala.
Do ponto de vista militar, Trump está saindo do manual de “ataques cirúrgicos” e adotando uma estratégia de destruição de capacidade nacional. É a doutrina de “punição econômica por meios explosivos”.
Estreito de Ormuz: a alavanca iraniana e o preço do petróleo
A exigência central de Trump é a reabertura imediata do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo. O bloqueio parcial ou total implementado pelo Irã nas últimas semanas já provocou uma disparada nos preços dos combustíveis, alimentando inflação global e pressionando a economia americana em ano eleitoral.
O que Trump chama de “abertura natural” do estreito ao fim do conflito ignora a realidade: Teerã vê o estreito como sua principal moeda de barganha geopolítica. Fechá-lo é a resposta iraniana às sanções e aos ataques dos EUA. Abri-lo sem um acordo abrangente que garanta sua sobrevivência seria, para os aiatolás, um suicídio estratégico.
O problema do prazo móvel e da credibilidade
A declaração de Trump traz um elemento curioso: ele admite que o prazo para o Irã reabrir o estreito “já mudou várias vezes”. Isso é um clássico sinal de negociação sob pressão com falhas de coordenação interna. Prazos que se movem enfraquecem a credibilidade da ameaça. Ao mesmo tempo, a fixação em datas específicas (“terça-feira será o dia”) cria uma armadilha de auto-expectativa: se não houver bombardeios, a liderança americana perde força.
Por outro lado, Trump também afirmou que a guerra “poderia ser resolvida em poucas semanas”. Essa previsão otimista contrasta com o histórico de conflitos no Oriente Médio e ignora a capacidade iraniana de retaliar via proxies no Líbano, Síria, Iraque e Iêmen, além de ataques cibernéticos e com drones.
Impasse doméstico e repercussão global
Pesquisas da CNN indicam que a guerra é impopular entre os americanos. Em um cenário eleitoral delicado, Trump caminha sobre uma corda bamba: demonstrar força sem arrastar o país para um conflito longo e custoso. Ameaças como a de hoje agradam sua base nacionalista, mas preocupam aliados europeus e asiáticos, que dependem do petróleo do Golfo.
Do lado iraniano, a resposta deve vir em duas frentes: 1) retórica ainda mais inflamada contra os EUA; 2) ações assimétricas, como ataques a navios ou infraestrutura energética americana na região, sem deixar rastros claros.
Cenários prospectivos
Cenário 1 (curto prazo – mais provável): Trump não bombardeia pontes e usinas na terça-feira, mas mantém a pressão militar e econômica. O prazo é novamente adiado com uma “última chance” para negociações mediadas por Omã ou Catar.
Cenário 2 (médio prazo – risco moderado): Ataques seletivos a instalações portuárias ou refinarias, mas poupando pontes e usinas civis. Haveria dano econômico sem o custo humanitário máximo.
Cenário 3 (grave – improvável, mas possível): Execução da ameaça total. Bombardeios maciços na infraestrutura iraniana levariam a uma guerra regional aberta, com fechamento completo do Estreito de Ormuz por meses, disparada do petróleo acima de US$ 200 o barril e recessão global.
A postagem de Trump não é um deslize – é um teste de limites e uma demonstração de que sua administração está disposta a cruzar linhas vermelhas que nem mesmo governos anteriores cruzaram. Xingamentos à parte, a ameaça a pontes e usinas transforma o conflito com o Irã de uma disputa por influência regional em uma guerra de exaustão nacional.
O mundo assiste, o mercado de petróleo treme, e os iranianos comuns – que já sofrem com sanções – se preparam para um “inferno” que pode ser mais literal do que retórico. Resta saber se Teerã recuará ou se a profecia de Trump se tornará autossuficiente: a promessa de bombardeios pode, ela mesma, inviabilizar qualquer acordo de última hora.
Ana Paula Sartori é doutora em Relações Internacionais pela USP e consultora em geopolítica do petróleo. As opiniões expressas são pessoais.





